O que O Diabo Veste Prada ainda pode nos ensinar sobre mulheres, trabalho e poder?
- Bruna Basevic
- há 3 horas
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Por: Bruna Basevic

Recentemente, ao revisitar O Diabo Veste Prada, percebi algo interessante: a forma como enxergamos certas histórias muda conforme mudamos também.
Quando assisti ao filme pela primeira vez, anos atrás, meu olhar estava muito mais voltado para o universo da moda, para a transformação da protagonista ou até para a figura forte e imponente de Miranda Priestly.
Hoje, anos depois, formada em Publicidade, depois de experiências em diferentes empresas, equipes, posições de liderança e vivendo também a realidade do empreendedorismo, percebo que a história desperta outras perguntas.
Talvez a principal delas seja:
O que aprendemos sobre mulheres, trabalho e poder?
E talvez uma pergunta ainda mais profunda:
Quanto custou, e ainda custa, para muitas mulheres chegarem aos lugares que ocupam?
Mulheres que precisaram endurecer para sobreviver
Durante muito tempo, mulheres precisaram lutar para ocupar espaços que não haviam sido construídos pensando nelas.
Precisaram provar capacidade repetidas vezes. Precisaram falar mais alto para serem ouvidas. Precisaram ser mais fortes para serem respeitadas. Precisaram trabalhar mais para serem reconhecidas.
Muitas aprenderam que demonstrar sensibilidade poderia ser interpretado como fragilidade.
E talvez seja por isso que tantas mulheres tenham assumido modelos de liderança extremamente rígidos ao longo do caminho.
Não necessariamente porque desejavam isso. Mas porque, em muitos momentos, parecia ser a única forma de sobreviver.
Miranda Priestly representa um pouco desse retrato: uma mulher extremamente competente, admirada, respeitada e poderosa, mas que carrega consigo o peso das cobranças, da perfeição e de uma rotina que exige renúncias constantes.
O problema nunca foi a força feminina
Existe algo importante nessa discussão.
O problema nunca foi a mulher forte. Nunca foi a mulher ambiciosa. Nunca foi a mulher que ocupa espaços de liderança. Nunca foi a mulher que deseja crescer.
O problema surge quando acreditamos que o único caminho possível para chegar lá seja abandonar nossa humanidade.
Quando crescemos acreditando que precisamos escolher entre carreira ou bem-estar. Entre sucesso ou equilíbrio. Entre competência ou acolhimento.
E essa lógica afeta muitas mulheres até hoje. Especialmente aquelas que enfrentam múltiplas vulnerabilidades.
Quando a realidade é ainda mais difícil
No Instituto ELA convivemos diariamente com histórias de mulheres que enfrentam desafios muito maiores do que crescer profissionalmente.
Mulheres em situação de vulnerabilidade social. Mulheres que sofreram violência. Mulheres que tiveram sua autonomia interrompida. Mulheres que precisaram reconstruir suas vidas inúmeras vezes.
E existe algo que se repete em muitas dessas histórias:
A independência financeira aparece como uma das principais ferramentas de transformação.
Gerar renda não significa apenas receber dinheiro. Significa recuperar autonomia. Significa poder fazer escolhas. Significa interromper ciclos de dependência. Significa reconstruir autoestima. Significa enxergar possibilidades.
Por isso, quando falamos sobre empoderamento feminino, talvez seja importante ampliar a conversa.
Empoderamento não é apenas ocupar cargos altos. Também é garantir que mulheres tenham oportunidades, apoio, educação, segurança e condições reais de construir seus próprios caminhos.
Talvez a pergunta seja outra
Talvez a grande reflexão não seja se Miranda estava certa ou errada.
Talvez a pergunta seja:
Como podemos construir ambientes onde mulheres não precisem endurecer para existir?
Onde possam liderar sem perder sua essência. Onde possam crescer sem culpa. Onde possam ser fortes sem precisar carregar tudo sozinhas.
Porque o verdadeiro empoderamento talvez não esteja em ocupar espaço a qualquer custo.
Talvez esteja em construir espaços melhores para quem vem depois. E essa é uma conversa que vale muito mais do que um filme.
É uma conversa sobre trabalho. Sobre dignidade. Sobre autonomia. E principalmente sobre mulheres.

