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Figura Materna




Por: Maria Inês de Freitas Custódio - Ma. em História Social pela PUC-SP.






















(...) as mulheres, em primeiro lugar, são

vistas, descritas e representadas pelos homens.

Trata-se em seguida de imaginar as mulheres

através desses depoimentos. Isso implica um

trabalho de análise crítica e desconstrução da

linguagem e das imagens, que faz parte dos

métodos atuais de decifração dos discursos e dos

quais a história das mulheres é parte integrante no

mais alto ponto. Ela serve-se dos mais

contemporâneos materiais e instrumentos para

atender a suas próprias necessidades.

Michele Perrot

As linhas seguintes exprimem uma respeitosa homenagem do Instituto ELA às mulheres brasileiras pelo simbólico e afetuoso “Dia das Mães’ sem discriminação de classe, religião, educação, cor, raça, etnia e gênero, o que importa é o AMOR.


Este artigo tem a intenção de trazer à luz da reflexão os inúmeros e variados papéis que a figura feminina desempenha na família e na sociedade desde os primórdios dos tempos.

A rigor, o reconhecimento do Dia das Mães deu-se por meio do Decreto nº. 21.336, em 5 de maio de 1932, conjuntura em que, o então, presidente Getúlio Vargas o assinou, de ora em diante, o segundo domingo de maio seria devotado a celebrar o “amor materno” no Brasil. Vale destacar que o regime de governo era o político democrático liberal.


Historicamente, estudos indicam que a colaboração feminina nas sociedades pré históricas era gerar, alimentar os (as) filhos (as) e cuidar dos anciãos dos grupos. Aos homens, cabiam as tarefas de caçar, fazer o fogo, aperfeiçoar os instrumentos de trabalho e registrar o cotidiano em paredes de pedras. O mulherio da era paleolítica, contraponto ao que se pensa, eram parceiras dos homens nas atividades de organização e trabalho dos núcleos familiares, fabricavam ferramentas para a obtenção dos alimentos, quebravam pedras, caçavam elefantes e construíam armadilhas.


No mundo antigo, mitologicamente, Gaia, a primeira deusa grega criou o planeta, a natureza e os mares, relacionada a origem de tudo e ao amor infinito, espelhada na cobra. No Egito, os animais domesticados cumpriam um papel de idolatria junto às figuras femininas, assim eram, as divindades - Hator deusa símbolo de mãe, sexualidade e maternidade, retratada pela vaca, leoa e a cobra. A deusa Bastet, protetora das mulheres grávidas era traduzida pelos gatos a caçar, pescar, amamentar, afetivamente ligada as crianças pelas brincadeiras. Iat deusa egípcia simboliza o leite, a nutrição e o parto. A deusa Nêmesis, de origem grega significa a retribuição divina. A deusa romana, Juno, representa gravidez, parto e casamento. A deusa Lucina também romana significa aquela que traz luz as crianças. A deusa Maia, grega e romana traduz a maternidade e o crescimento, Nanna, a deusa nórdica simboliza mãe, mulher ou ousada, as deusas Modron e Matrona, de origem celta representam a maternidade.


Apesar das transformações sofridas pelas coletividades ao longo de seus processos civilizatórios, a maternidade continua e tende a ser uma temática complexa, enraizada na prática da procriação, criação dos filhos e cuidado com o outro, Tal legitimidade feminina é própria ao amor materno como um dom natural inerente ao amor incondicional por meio de uma projeção naturalizada da figura sagrada de “Maria mãe de Jesus”.


Durante a Idade Média, a figura feminina era totalmente submetida ao pai ou ao marido, inexistia a ideia e tão pouco a prática do amor absoluto aos filhos, e a concepção, um mistério, pois a gravidez era um segredo negado aos homens, acreditava-se que a mulher agasalhava o sêmen masculino para daí nascer a criança. No momento do parto, a mulher era encurralada por parteiras ou comadres tornando a maternidade um risco de morte. A maternidade era um dever das rainhas, tinham que procriar para a manutenção do staus quo, uma das obrigações da realeza feminina em prol de ser respeitada e vitoriosa perante o reino. De outro lado, o cuidado com as crianças era de responsabilidade das camponesas pobres, assim como as amas de leite que amamentavam os bebês.


A partir do século XVIII a figura da mulher passou a representar “a obrigação de ser mãe” nascendo o “mito do amor materno” projetado de maneira orgânica e totalmente espontâneo de que toda mulher tinha o desejo de gerar um(a) filho(a).

Nesse cenário, a interpretação sobre o que é ser criança também sofreu mudanças, afinal, atrelado estava à imagem da mulher realizada, desde que, abdicasse seus interesses pessoais para se doar de corpo e alma aos seus descendentes. Assim, a maternidade foi estruturada como o auge da vida da mulher para atingir a perfeição e a realização da feminilidade, assumindo o papel inevitável de mãe com dedicação integral a parentela.


Tais funções femininas, valorizadas socialmente permitiam às mulheres um aparente prestígio na sociedade e consequentemente, o acesso à educação para as que tinham posses a fim de ensinar as crianças. Desse modo, às mulheres se firmaram como “esposa” ou “mãe” existindo de uma certa forma em relação ao “outro”.

Nesse modelo patriarcal, a figura feminina era destinada a engravidar e cuidar dos bebês e da família, meio de demonstração do seu amor, enfatizando assim, a maternidade como identidade do feminino. Em alternativa, a recompensa era a felicidade materna em promover o equilíbrio da família e criar indivíduos para o exercício da cidadania.


Nesse enquadramento, a Idade Média e a Idade Moderna caracterizavam às mulheres em diversos perfis, todos típicos de representações oriundas das sociedades fabricantes de definições de uma cultura com argumentos sociais, ideológicos, políticos, estéticos, éticos, religiosos e econômicos sobre grupos, categorias e classes. Algumas determinações:


✓ a vida aproveitável das mulheres era inferior a dos homens e a causa era a maternidade, preterindo a vida do (a) filho (a) à da mãe;

✓ às mulheres eram classificadas como estampas, valorizadas pela aparência, pelo cuidado com a beleza, a mulher feia, desleixada, não era notada pela sociedade;

✓ o trabalho produzido pelas mulheres em casa não era remunerado, mas de essencial fundamento para a vida em sociedade;

✓ a vida da mulher do campo era mais dolorosa em comparação com a sobrevivência urbana, em razão da opressão patriarcal.


No entanto, a percepção de mulher moderna assume ambições mais palpáveis conforme a realidade experimentada toma corpo a partir do advento da industrialização, das guerras, das alternâncias de localidades, forçando um novo modelo de autocontrole das famílias e uma renovação de posturas entre homens e mulheres. Afinal, o lugar da mulher nunca foi o público, não era o da cidade, sempre foi o privado, o lar, em estado recluso. A persistência de aprimoramento do pensar e fazer a História Social associa necessariamente o avanço de novos objetos com intuito de reflexão sobre o obscuro processo histórico de emancipação da mulher. De conduta similar a dificuldade ponderada na movimentação de formação da contemporaneidade histórica, a noção de “mulher atual” pode ser compreendida como sendo abastecedora de uma simetria feminina multifacetada e complexa.


As transformações no costume e na inclusão social da mulher no início do século 20 nascentes em meio ao regime republicano e ao sistema capitalista e industrial, conceberam novas experimentações e possibilidades de autossuficiência limitadas, conferindo por meio dos impactos políticos e econômicos diferentes espaços de vivências das mulheres na vida pessoal e profissional.


Consagradamente a maternidade e a maternagem são conhecidas como resultantes dos elos biológicos e afetivos ajustados entre mãe e filho(a). Hoje, com o auxílio das tecnologias reprodutivas e os novos arranjos familiares, contempla-se o alargamento de atuais chances de maternidade e maternagem capazes de contestar os vínculos biológicos e as responsabilidades de gênero nos deveres com a prole. A importância sobre a edificação social da maternidade e da maternagem no decorrer do tempo enriqueceu a argumentação acerca das demandas dos novos desenhos de família. Durante o tempo em que a maternidade é tradicionalmente atravessada pela combinação consanguínea por mãe e filho(a), a maternagem é determinada na afinidade sentimental do cuidado e aconchego ao filho (a) por uma figura maternal.

A maneira como esse amor, esse esmero dar-se-á, dependerá dos princípios socialmente correlacionados a significação do sujeito “mulher” e a interpretação do que é o (a) dependente filho (a) em um estabelecido contexto sociocultural.


Isto posto, o ideal que difere do real, é o reconhecimento do enaltecimento e da vivência da maternidade e da maternagem em conformidade com a mentalidade, hábitos e costumes de cada sociedade situada no tempo e no espaço historicamente.


Referências bibliográficas:

BADINTER, E. (1985). Um amor construído. O mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

PERROT, Michelle. Minha história das mulheres. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2012.


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