top of page

Dia do Folclore: mulheres, lendas e os diferentes rostos do feminino na cultura brasileira

Celebrado em 22 de agosto, o Dia do Folclore é uma oportunidade de valorizar histórias, costumes, crenças e manifestações que atravessam gerações e ajudam a formar a identidade cultural brasileira. Mais do que personagens de histórias populares, essas figuras também podem revelar muito sobre a forma como diferentes épocas e comunidades imaginaram o feminino.

Por isso, neste Dia do Folclore, o Instituto ELA convida você a conhecer algumas dessas personagens, suas lendas, suas origens e as diferentes interpretações que elas podem despertar ainda hoje.


Iara: beleza, encantamento e o mistério das águas

Uma das personagens mais conhecidas do folclore brasileiro, Iara está profundamente ligada ao imaginário da região amazônica. Também chamada de Mãe-d’Água, sua história possui diferentes versões, como acontece com muitas lendas transmitidas oralmente, mas uma das narrativas mais populares conta que Iara nem sempre viveu nos rios: antes disso, ela teria sido uma jovem indígena conhecida por sua coragem e por sua habilidade como guerreira.


Segundo essa versão da lenda, Iara se destacava entre os guerreiros de seu povo, despertando a admiração de seu pai e, ao mesmo tempo, a inveja de seus irmãos. Incomodados com seu reconhecimento, eles teriam planejado matá-la. Iara conseguiu se defender, mas, durante o confronto, seus irmãos acabaram mortos. Ao saber do ocorrido, seu pai decidiu puni-la e ordenou que fosse lançada às águas. A partir daí, a história ganha seu caráter fantástico: Iara é acolhida pelo rio e transformada na figura encantada que passaria a habitar as águas amazônicas.


É depois dessa transformação que surge a imagem mais conhecida da personagem: uma mulher de grande beleza, dona de uma voz capaz de encantar aqueles que se aproximam dos rios. Em muitas versões, seu canto atrai homens para as águas, fazendo de Iara uma figura cercada por fascínio, mistério e também temor. Mas conhecer aquilo que vem antes dessa parte da lenda muda um pouco a forma como podemos enxergá-la.


Iara não começa sua história apenas como uma mulher que encanta por sua aparência. Ela aparece primeiro como alguém reconhecida por sua força, coragem e capacidade — e que acaba enfrentando consequências depois de se defender daqueles que desejavam eliminá-la. Por isso, ao revisitar a lenda hoje, também podemos olhar para Iara como uma personagem marcada por resistência e transformação. Sua passagem de guerreira para Mãe-d’Água pode ser lida como uma espécie de renascimento: mesmo após ser castigada e lançada ao rio, sua história não termina ali.


Comadre Fulozinha: a guardiã das matas

Presente principalmente nas tradições populares do Nordeste brasileiro, com forte presença em Pernambuco, a Comadre Fulozinha é uma personagem profundamente ligada às florestas e à proteção da natureza. Sua aparência varia conforme a região e a versão da lenda: em algumas histórias, é apresentada como uma menina; em outras, como uma mulher de cabelos longos que vive nas matas e protege animais e plantas contra caçadores e pessoas que desrespeitam o ambiente. Sua presença também costuma ser anunciada por um assobio forte e misterioso, capaz de confundir quem entra na floresta.


A relação entre a Comadre Fulozinha e aqueles que atravessam seu território depende, muitas vezes, da maneira como essas pessoas se comportam. Quem respeita a mata e os animais tende a não ser incomodado; já aqueles que caçam, maltratam animais ou destroem a floresta podem sofrer suas travessuras e punições. Em algumas versões, ela chega a impedir que essas pessoas encontrem o caminho de volta, reforçando seu papel como uma presença protetora e vigilante.


Mais do que uma personagem que castiga quem entra na mata, a Comadre Fulozinha representa uma relação de respeito com aquilo que não nos pertence por completo. Sua presença lembra que a floresta possui regras próprias e que entrar nesse espaço exige cuidado, atenção e responsabilidade. Nesse sentido, sua lenda se diferencia por colocar uma mulher no papel de quem observa, adverte e reage quando esses limites são ultrapassados. É uma personagem cuja força nasce menos do encantamento ou do medo e mais do vínculo que mantém com o lugar que defende.


Mula-sem-cabeça: quando a mulher se transforma em punição

Você provavelmente já ouviu, em alguma brincadeira de infância, a frase “quem chegar por último é a mulher do padre”. O que parece apenas uma provocação pueril guarda relação com uma das lendas mais conhecidas do folclore brasileiro: a história da mulher que, por se envolver amorosamente com um padre, seria amaldiçoada e transformada em Mula-sem-cabeça.


Em uma das versões mais populares, a transformação acontece nas noites de quinta-feira, quando a mulher assume a forma de uma mula que corre sem rumo, soltando fogo pelo pescoço e emitindo um relincho tão forte que poderia ser ouvido a grandes distâncias. Como muitas histórias transmitidas oralmente, a lenda ganhou diferentes versões pelo país, mas um ponto costuma permanecer: é sobre a mulher que recai a maldição.


Essa escolha narrativa também revela valores morais e religiosos que atravessaram gerações. Mais do que uma criatura assustadora, a Mula-sem-cabeça carrega a ideia de uma mulher punida por seus afetos e por sua sexualidade, mesmo quando a relação envolvia duas pessoas. Recontar essa lenda hoje abre espaço para questionar por que tantas histórias populares concentraram sobre as mulheres a culpa e as consequências de escolhas construídas a dois.


Cuca: medo, poder e uma personagem que atravessou gerações

A Cuca é uma das figuras mais conhecidas do folclore brasileiro e, para muitas pessoas, também uma das primeiras apresentadas ainda na infância. Sua origem está ligada a antigas tradições ibéricas, mas, no Brasil, ganhou características próprias. Ao longo do tempo, passou a ser retratada como uma mulher misteriosa, ligada à magia e ao medo, e adaptações como Sítio do Picapau Amarelo ajudaram a consolidar sua imagem com traços de jacaré.


Nas versões mais conhecidas, a Cuca ronda a noite e assusta crianças, especialmente as que desobedecem aos pais — imagem eternizada também na cantiga “Nana, neném, que a Cuca vem pegar”. Sua história se espalhou por diferentes regiões do Brasil e assumiu várias formas, como a de uma velha misteriosa ou de uma bruxa.


Mais do que uma personagem assustadora, a Cuca também representa uma mulher associada ao poder, ao conhecimento e ao mistério. Sua presença lembra como figuras femininas independentes, envelhecidas ou ligadas a saberes incomuns foram muitas vezes transformadas em ameaça nas narrativas populares.


Alamoa: beleza e mistério em Fernando de Noronha

Menos conhecida nacionalmente do que personagens como Iara e Cuca, a Alamoa pertence às tradições populares de Fernando de Noronha, em Pernambuco. Seu nome teria origem em uma adaptação popular da palavra “alemã”, referência à aparência com que costuma ser descrita: pele clara, cabelos loiros e olhos azuis. Segundo a lenda, ela surge durante a noite, especialmente em noites de lua cheia, e encanta marinheiros e moradores, conduzindo-os até o Morro do Pico, um dos pontos mais marcantes do arquipélago.


Ao chegar ao local, porém, a beleza que atraiu suas vítimas dá lugar a uma imagem assustadora. Em algumas versões, a Alamoa se transforma em uma caveira; em outras, aprisiona ou leva os homens à morte. Essa mudança repentina entre fascínio e ameaça faz da personagem uma das figuras mais enigmáticas do folclore pernambucano e também revela como certas narrativas populares associaram a beleza feminina ao perigo, ao desconhecido e àquilo que escapa ao controle.


Do folclore para as telas

Essas personagens também continuam encontrando espaço na cultura contemporânea. Livros, filmes, séries e outras produções audiovisuais revisitam o folclore brasileiro e apresentam novas interpretações de figuras tradicionais. Algumas delas, inclusive, acompanham muitas pessoas desde a infância, como a Cuca de Sítio do Picapau Amarelo, cuja presença na televisão ajudou a tornar a personagem reconhecida por diferentes gerações. Mais recentemente, produções como Cidade Invisível voltaram a aproximar o público de personagens inspirados em diversas lendas brasileiras.


Esse alcance do audiovisual contribui para que essas histórias permaneçam no nosso imaginário mesmo muitos anos depois do primeiro contato com elas. Ao reaparecerem em novas produções, personagens como Iara e Cuca também ganham outras camadas e interpretações, permitindo que narrativas antigas continuem circulando, sejam redescobertas por novos públicos e dialoguem com questões do presente.


Histórias que continuam vivas

Celebrar o Dia do Folclore também é reconhecer que essas histórias fazem parte de uma memória coletiva construída por muitas gerações. Conhecer as lendas brasileiras significa compreender um pouco mais sobre as culturas, regiões, crenças e pessoas que ajudaram a construir o país. Quando olhamos especialmente para as personagens femininas, encontramos mulheres imaginadas de inúmeras formas: poderosas, assustadoras, protetoras, misteriosas, livres ou castigadas.


Revisitar essas personagens com um olhar contemporâneo não significa apagar suas histórias originais, mas ampliar as conversas que elas ainda podem provocar. Assim como o próprio folclore permanece vivo ao se transformar com o tempo, a maneira como enxergamos o feminino também continua mudando, abrindo espaço para novas interpretações sobre personagens que atravessam gerações.



 
 
 

Comentários


bottom of page