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Tereza de Benguela não pediu licença —e a educação também não deveria

Por: Lara Crivelaro



Em 25 de julho, o Brasil celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e

Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído pela Lei nº

12.987/2014. A data nasceu em 1992, num encontro em Santo Domingo que reuniu

mulheres afro-latinas e afro-caribenhas dispostas a nomear, juntas, o que raça e gênero

fazem uma com a outra quando se combinam. No Brasil, ela homenageia Tereza de

Benguela, que por duas décadas liderou o Quilombo do Quariterê, em Mato Grosso, depois

de assumir o comando após a morte de seu companheiro. Os números atuais mostram por

que essa memória continua urgente: mulheres negras recebem hoje 47,5% do salário de

homens não negros, foram 61,1% das vítimas de feminicídio registradas em 2023 e

enfrentam desemprego de 13,9%, quase o dobro da média nacional.


Gosto de pensar em Tereza de Benguela não como um símbolo distante, mas como alguém

que resolveu um problema concreto: como manter um grupo vivo, organizado e livre num

sistema pensado para destruí-lo. Essa é, no fundo, a mesma pergunta que atravessa a vida

de tantas mulheres negras hoje, só que os instrumentos mudaram. Um deles, talvez o mais

decisivo, é a educação.


Trabalho há quase vinte anos com internacionalização escolar e vejo, de perto, como o

acesso a uma formação de qualidade muda a trajetória de uma jovem negra de um jeito que

nenhuma outra política consegue substituir. Não é retórica. Uma menina que entra numa

escola que a trata como alguém com futuro, que a apresenta a um intercâmbio, a uma

bolsa, a uma universidade fora do circuito que sua família imaginava possível, sai dali

carregando algo que o racismo estrutural tenta negar todos os dias: a certeza de que ela

pertence a esses espaços. É isso que sustenta o feminismo negro na prática, muito além

dos textos acadêmicos — a convicção, construída experiência após experiência, de que

representatividade não é imagem, é ocupação real de lugares de decisão.


E aqui os números também falam. O Relatório de Transparência Salarial de 2025 mostra

que a participação de mulheres negras em empresas com cem ou mais funcionários

cresceu 18,2% no último ano, mais que o triplo do crescimento entre homens. Isso não

acontece por acaso: acontece porque alguém, em algum momento, teve acesso a uma

formação que abriu a porta. A recém-aprovada Lei nº 15.142/2025, que amplia de 20% para

30% as vagas reservadas a candidatos negros em concursos públicos, caminha na mesma


Por isso resisto a tratar o 25 de julho como uma data só de homenagem. Prefiro tratá-la

como um lembrete de trabalho inacabado. Se Tereza de Benguela organizou um quilombo

para garantir que seu povo tivesse onde viver com dignidade, as escolas, universidades e

programas de formação de hoje têm a mesma tarefa, só que em outro terreno: garantir que

uma menina negra saiba, desde cedo, que o mundo — inclusive o mundo lá fora, as bolsas

internacionais, os programas de intercâmbio, as vagas de liderança — também foi feito para

ela. A equidade racial não se declara, se constrói uma matrícula, uma bolsa, uma sala de

aula de cada vez. E é nesse ponto, bem concreto, que a luta histórica das mulheres negras

latino-americanas e caribenhas encontra o presente.


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*Fontes de dados: Ministério das Mulheres (3º Relatório de Transparência Salarial, 2025);

Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário Brasileiro de Segurança Pública); Dieese;

Lei nº 12.987/2014; Lei nº 15.142/2025; Decreto nº 11.514/2023.*


Lara Crivelaro é CEO e Diretora de Educação Internacional da Efígie, onde atua desde 2006 à frente da internacionalização de mais de 60 escolas parceiras no Brasil. É doutora em Ciências Sociais pela UNESP, mestre em Sociologia pela UNICAMP, professora universitária e coordenadora de pós-graduação. Representa no Brasil a Washington Academy, e assina como colunista em veículos como Educador21 e outros. É autora de livros publicados pela Editora Alínea. direção — reconhece que sem intervenção deliberada na educação e no acesso ao trabalho, a desigualdade se reproduz sozinha, geração após geração.








 
 
 

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