Tereza de Benguela não pediu licença —e a educação também não deveria
- Bruna Basevic
- 27 de jul.
- 3 min de leitura
Por: Lara Crivelaro

Em 25 de julho, o Brasil celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e
Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, instituído pela Lei nº
12.987/2014. A data nasceu em 1992, num encontro em Santo Domingo que reuniu
mulheres afro-latinas e afro-caribenhas dispostas a nomear, juntas, o que raça e gênero
fazem uma com a outra quando se combinam. No Brasil, ela homenageia Tereza de
Benguela, que por duas décadas liderou o Quilombo do Quariterê, em Mato Grosso, depois
de assumir o comando após a morte de seu companheiro. Os números atuais mostram por
que essa memória continua urgente: mulheres negras recebem hoje 47,5% do salário de
homens não negros, foram 61,1% das vítimas de feminicídio registradas em 2023 e
enfrentam desemprego de 13,9%, quase o dobro da média nacional.
Gosto de pensar em Tereza de Benguela não como um símbolo distante, mas como alguém
que resolveu um problema concreto: como manter um grupo vivo, organizado e livre num
sistema pensado para destruí-lo. Essa é, no fundo, a mesma pergunta que atravessa a vida
de tantas mulheres negras hoje, só que os instrumentos mudaram. Um deles, talvez o mais
decisivo, é a educação.
Trabalho há quase vinte anos com internacionalização escolar e vejo, de perto, como o
acesso a uma formação de qualidade muda a trajetória de uma jovem negra de um jeito que
nenhuma outra política consegue substituir. Não é retórica. Uma menina que entra numa
escola que a trata como alguém com futuro, que a apresenta a um intercâmbio, a uma
bolsa, a uma universidade fora do circuito que sua família imaginava possível, sai dali
carregando algo que o racismo estrutural tenta negar todos os dias: a certeza de que ela
pertence a esses espaços. É isso que sustenta o feminismo negro na prática, muito além
dos textos acadêmicos — a convicção, construída experiência após experiência, de que
representatividade não é imagem, é ocupação real de lugares de decisão.
E aqui os números também falam. O Relatório de Transparência Salarial de 2025 mostra
que a participação de mulheres negras em empresas com cem ou mais funcionários
cresceu 18,2% no último ano, mais que o triplo do crescimento entre homens. Isso não
acontece por acaso: acontece porque alguém, em algum momento, teve acesso a uma
formação que abriu a porta. A recém-aprovada Lei nº 15.142/2025, que amplia de 20% para
30% as vagas reservadas a candidatos negros em concursos públicos, caminha na mesma
Por isso resisto a tratar o 25 de julho como uma data só de homenagem. Prefiro tratá-la
como um lembrete de trabalho inacabado. Se Tereza de Benguela organizou um quilombo
para garantir que seu povo tivesse onde viver com dignidade, as escolas, universidades e
programas de formação de hoje têm a mesma tarefa, só que em outro terreno: garantir que
uma menina negra saiba, desde cedo, que o mundo — inclusive o mundo lá fora, as bolsas
internacionais, os programas de intercâmbio, as vagas de liderança — também foi feito para
ela. A equidade racial não se declara, se constrói uma matrícula, uma bolsa, uma sala de
aula de cada vez. E é nesse ponto, bem concreto, que a luta histórica das mulheres negras
latino-americanas e caribenhas encontra o presente.
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*Fontes de dados: Ministério das Mulheres (3º Relatório de Transparência Salarial, 2025);
Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Anuário Brasileiro de Segurança Pública); Dieese;
Lei nº 12.987/2014; Lei nº 15.142/2025; Decreto nº 11.514/2023.*

Lara Crivelaro é CEO e Diretora de Educação Internacional da Efígie, onde atua desde 2006 à frente da internacionalização de mais de 60 escolas parceiras no Brasil. É doutora em Ciências Sociais pela UNESP, mestre em Sociologia pela UNICAMP, professora universitária e coordenadora de pós-graduação. Representa no Brasil a Washington Academy, e assina como colunista em veículos como Educador21 e outros. É autora de livros publicados pela Editora Alínea. direção — reconhece que sem intervenção deliberada na educação e no acesso ao trabalho, a desigualdade se reproduz sozinha, geração após geração.





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