• ELA

Não me interrompa, por favor


Sou pai de três meninas lindas, casado com uma mulher incrível, tenho irmãs, sobrinhas, filho de uma mulher maravilhosa dona Laura. Talvez em função disso, fui convidado pelo Instituto ELA, uma instituição que acredita na Educação como transformação de vida! Aceitei, afinal, temos os mesmos valores, a mesma missão e ajudar a realizar projetos para meninas em mulheres em vulnerabilidade social, emocional e profissional, corresponde aos meus desejos, com o que acredito e gosto de fazer.


Neste artigo o convite foi para falar um pouco, sobre os aspectos femininos os quais julgo relevantes no mundo corporativos, ou melhor, nos espaços de poder de maneira geral.

Antes de mais nada, quero chamar atenção aos cuidados necessários para não cair na armadilha dos estereótipos. Atributos chamados como femininos, não estão presentes apenas nas mulheres, da mesma forma, nem todas mulheres os possuem.

Outro ponto de atenção é que sendo eu um homem, por mais empatia que tente ter com as mulheres, sempre será minha visão, masculina, pois não dá para viver plenamente a experiência do outro, nesse caso, da outra.


O desafio então é grande e maior ainda por estarmos ainda sob o calor das indignações causadas pelos áudios de um Deputado Estadual por São Paulo. Acreditem que, por mais assustador que possa parecer, esse tipo de pensamento não é incomum entre os homens, os grupos de aplicativos de mensagens estão repletos de frases e pensamentos semelhantes aos expressados pelo caridoso deputado.

A vantagem, se é que se pode dizer assim, é que há de forma crescente uma reação a estes comentários, inclusive entre os homens.


Aproveito para abrir um parêntese para comentar brevemente sobre os áudios. Em seus envergonhados pedidos de desculpas, o, até o momento, parlamentar diz não entender como seu ato poderia sofrer alguma punição pois não houve o ato, propriamente, e apenas falas, e, ainda segundo o nobre deputado, tais comentários não poderiam ser mais graves do que, por exemplo, roubar.

Ele mostra, desta forma, que não entendeu absolutamente nada, evidencia que além de sexista é um completo idiota e expõe como esta cultura está arraigada em nossa sociedade machista.


A palavra é uma ação, ela tem poder de causar dor, sofrimento assim como de amparar e trazer conforto, ela não é inócua.

Para fechar o parêntese, é assustador a quantidade de votos obtida pelo dito cujo, e ele, como já disse, não é exceção.

Voltando ao tema proposto, sempre me socorro às mulheres de meu convívio, leia-se esposa e filhas, para tentar entender as dores provocadas a elas nos ambientes onde há alguma disputa de poder. Para minha surpresa, a principal queixa foi a interrupção da fala, da linha de argumentação, enquanto as mulheres falam.


Claro que minhas mulheres estão, felizmente, distantes de casos como assédio físico ou moral. Talvez estas pudessem ser queixas primárias para um outro publico, mas aqui trata-se se algo mais sutil e menos perceptível e nem por isso indolor.

Mas confesso que foi um tapa na cara ouvir o quanto nossa objetividade e assertividade não tolera uma fala feminina que, via de regra, tem abrangência maior, é mais holística e por consequência tem a capacidade de abordar os variados temas de forma mais diversa e ampla. Esta impaciência masculina, para dizer o mínimo, desconfio que seja uma forma de esconder o enorme medo que as mulheres nos causam por sermos absolutamente incapazes de acompanha-las e assim, rebatizamos nossa pequenez e limitação como os nomes de eficiência e pragmatismo.


Esse meu curso caseiro de masculinidade tóxica me possibilitou começar a perceber como o ambiente machista, no qual fui criado, me cegava para o dia-a-dia da situação das mulheres nos ambientes que trabalho. Passei a identificar a aspereza de comentários do tido “você está bonita hoje, alegrou o ambiente” ou ainda o famoso “que mal humor, isso deve ser TPM”.

Para nós, homens, as vezes nos parece uma linha tênue difícil de separar um comentário idiota de um elogio ou uma piadinha de mal gosto e muitas vezes nem nos damos conta do mal que causamos

Aprendi a estar mais atento e adotar uma regra de ouro que é, se você não faz um determinado comentário para homem, não deveria, analogamente, fazer para uma mulher. Simples assim.


O “não me interrompa” foi uma resposta inesperada para mim e me fez refletir meu papel, como homem que tem um lugar de fala, a colaborar nesta luta igualitária na qual só teremos ganhadores.

Um mundo com mais atributos femininos seria, creio, mais fraterno, menos egoísta, mais empático dentre outros tantos atributos desejáveis.

Quando vemos um mundo que está prestes a sair de uma pandemia correr o risco de entrar numa guerra mundial, nos damos conta que o mundo masculino expirou, já passou do prazo de validade e a esperança de um futuro digno está em praticarmos estas características femininas que estão, majoritariamente, com as mulheres.

É hora delas ocuparem cada vez mais as instancias de poder e de decisão, sem se masculinizarem, pois para tanto já bastam os homens.

Fica a dica, vamos nos aproximar mais delas? Respeitá-las, ouvi-las, e acreditar que todos seremos vencedores. Juntos somos mais fortes!


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